
Há meses em que um fotógrafo deixa de fotografar.
Não porque perdeu o olhar.
Não porque deixou de saber fazer.
Não porque deixou de gostar.
Mas porque o telefone não toca.
Porque os emails não voltam.
Porque os orçamentos ficam sem resposta.
Porque projetos que pareciam certos desaparecem.
Porque clientes habituais deixam de aparecer.
Porque a agenda começa a ficar demasiado vazia para ser ignorada.
Estes primeiros seis meses do ano foram duros.
E podia escrever isto de uma forma mais elegante. Podia dizer que foram meses desafiantes, de reflexão, de reposicionamento, de aprendizagem. Mas a verdade é mais simples e menos bonita.
Estes meses fizeram-me sentir uma merda.
Não é fácil escrever isto. Muito menos dizê-lo em público. Há uma vergonha enorme em admitir que não estamos a trabalhar. Que a agenda está vazia. Que há dias em que não apetece sair da cama. Que há dias em que a cabeça não arranca. Que não há energia, nem ideias, nem vontade. Que a criatividade, essa coisa que tantas vezes nos pedem como se fosse uma torneira, simplesmente não aparece.
Nas redes sociais ninguém mostra isto.
Mostramos os bastidores, os palcos, as viagens, os aplausos, os cartazes, os trabalhos bonitos, os dias cheios. Mostramos a parte em que parece que está tudo a acontecer. E quando olhamos para fora, parece que toda a gente está em movimento menos nós.
É aí que a agenda vazia começa a fazer barulho.
E não é só falta de trabalho. A falta de trabalho dói, mas a falta de dinheiro para pagar contas corrói tudo. Corrói a confiança, a paciência, a autoestima, a relação com o próprio trabalho. Corrói a forma como acordamos, como respondemos a mensagens, como olhamos para o computador, como nos sentamos à secretária para tentar criar qualquer coisa.
Há dias em que uma pessoa se pergunta porque é que continua.
Porque é que não vai trabalhar para uma fábrica.
Para um supermercado.
Para um sítio qualquer onde, pelo menos, no fim do mês há uma certeza.
E depois vem a culpa por pensar isto.
Porque supostamente devemos ter sorte. Porque trabalhamos naquilo que gostamos. Porque vivemos da arte, da cultura, da fotografia, da criação. Porque há sempre alguém pronto a lembrar-nos que isto é um privilégio.
E é. Claro que é.
Mas também é uma forma muito instável de viver.
Durante anos ouvi, de forma direta ou indireta, aquela ideia bonita de que se fores bom o trabalho aparece. E durante muito tempo talvez tenha acreditado nisso. Talvez até tenha precisado de acreditar nisso.
Mas estes meses obrigaram-me a olhar para essa frase de outra forma.
Se fores bom, o trabalho aparece.
É uma frase confortável, mas é uma mentira perigosa.
Porque quando o trabalho não aparece, a conclusão que fica dentro de nós é quase automática. Se calhar não sou assim tão bom. Se calhar já tive o meu tempo. Se calhar o meu auge já passou. Se calhar fui esquecido. Se calhar aquilo que faço tem valor, mas o mercado já não o quer pagar.
E esta é talvez a parte mais difícil de admitir.
Não é só a conta bancária que começa a falhar. É a identidade.
O que acontece a um fotógrafo quando deixa de fotografar?
A pergunta parece simples, mas não é.
Porque para quem vive disto, fotografar não é apenas executar um serviço. Não é só carregar num botão, entregar ficheiros e seguir para o próximo trabalho. Fotografar é uma forma de estar no mundo. É uma forma de estar presente. De observar. De entrar nos lugares. De construir memória. De acompanhar processos, pessoas, gestos, corpos, palcos, territórios.
Quando isso desaparece, mesmo que temporariamente, desaparece também uma parte da pessoa que aprendemos a ser.
E depois há o lado mais duro, aquele de que se fala pouco entre colegas.
O ambiente está estranho.
Tenho falado com várias pessoas da área e percebo que isto não é só meu. Há uma espécie de silêncio espalhado. Menos trabalho. Menos respostas. Mais incerteza. Mais orçamentos enviados para o vazio. Mais projetos adiados. Mais promessas que não avançam. Mais pessoas a tentar parecer bem enquanto fazem contas em silêncio.
E no meio disto tudo continuamos a fingir que é uma questão individual.
Que falta comunicar melhor.
Que falta publicar mais.
Que falta fazer reels.
Que falta mandar mais emails.
Que falta estar mais presente.
Que falta isto e aquilo.
Às vezes falta, sim. Não vou fingir que o problema está sempre fora de nós. Também há responsabilidade nossa. Há estratégia a afinar, há posicionamento a rever, há zonas de conforto a abandonar. Eu próprio percebi isso. Percebi que não posso depender apenas de um tipo de trabalho, de um setor, de meia dúzia de clientes ou da ideia romântica de que o trabalho certo há de chegar.
Mas também não podemos transformar todos os problemas estruturais em falhas pessoais.
Há um problema maior quando tanta gente boa, competente e experiente vive presa a esta instabilidade constante. Há um problema quando o setor cultural continua a pedir entrega total, disponibilidade emocional, flexibilidade, paixão e urgência, mas raramente garante chão. Há um problema quando o amor pelo que fazemos é usado, muitas vezes, como substituto de condições justas.
Ouvi recentemente a Isabel Abreu dizer algo como: somos escravos deste universo cultural.
A frase ficou-me atravessada.
Não pela beleza da frase, mas pela violência da verdade que ela carrega. Porque há qualquer coisa neste meio que nos prende. Não é só trabalho. É pertença. É identidade. É amor. É vício. É missão. É ego. É medo de sair. É medo de deixar de fazer parte. É medo de admitir que aquilo que nos dá sentido também nos esgota.
E talvez seja por isso que aguentamos tanto.
Aguentamos os atrasos.
Aguentamos os silêncios.
Aguentamos os orçamentos ignorados.
Aguentamos o “não há verba”.
Aguentamos a visibilidade como moeda.
Aguentamos a ideia de que trabalhar na cultura é, por si só, uma recompensa.
Mas a visibilidade não paga renda.
O reconhecimento simbólico não paga Segurança Social.
O amor ao ofício não paga combustível, equipamento, seguros, discos, computadores, alimentação, impostos, vida.
E depois há outra camada, talvez menos confortável de admitir.
Custa perceber que a qualidade nem sempre é o critério principal.
Não digo isto para apontar o dedo a pessoas concretas. Digo-o porque há momentos em que somos obrigados a aceitar uma coisa difícil: fazer bem não chega. Ter percurso não chega. Ter experiência não chega. Às vezes pesa mais quem aparece mais, quem está mais perto, quem cobra menos, quem sabe vender melhor, quem está disponível no momento certo, quem tem os contactos certos, quem foi lembrado.
Isto não é uma acusação individual. É uma constatação sobre o funcionamento do meio.
E talvez essa seja uma das partes mais duras de engolir. Porque passamos anos a tentar melhorar o olhar, a técnica, a relação com as pessoas, a forma de estar no terreno, a entrega, o cuidado. E depois percebemos que o mercado nem sempre sabe, quer ou pode distinguir isso.
Não quer dizer que a qualidade não importe.
Quer dizer que, muitas vezes, a qualidade sozinha não nos salva.
Sobretudo quando estamos parados.
Porque quando estamos a trabalhar, não há tanto tempo para pensar. O corpo está em movimento. A cabeça está ocupada. Há uma próxima entrega, uma próxima deslocação, uma próxima edição, uma próxima reunião.
Quando tudo abranda, aparece o resto.
A dúvida.
A comparação.
A vergonha.
O medo.
A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta.
E se isto já não chega?
Não escrevo isto para pedir pena.
Escrevo porque talvez haja mais gente a sentir o mesmo e a achar que está sozinha. Talvez haja mais fotógrafos, artistas, técnicos, produtores, criadores e trabalhadores independentes a atravessar meses estranhos em silêncio. Talvez haja mais gente a fingir normalidade porque admitir fragilidade parece sempre perigoso num meio onde todos precisamos de continuar a parecer disponíveis, fortes e desejáveis.
Mas há uma diferença entre fragilidade e fracasso.
Estar sem trabalho não é o mesmo que não ter valor.
Ter medo não é o mesmo que estar acabado.
Precisar de mudar não é o mesmo que ter falhado.
Estes seis meses deixaram-me mais frio. Mais cansado também. Menos ingénuo, sem dúvida.
Fizeram-me perceber que diversificar não é trair o caminho. É talvez a única forma de o proteger. Procurar outros mercados, outros formatos, outros clientes, outras áreas, não significa desistir da fotografia que importa. Significa criar condições para continuar a fazê-la sem depender exclusivamente de um setor que tantas vezes não consegue cuidar das pessoas que o sustentam.
Continuo a querer fotografar.
Mas já não acredito que o trabalho apareça só porque o merecemos.
O trabalho também tem de ser procurado, disputado, protegido, comunicado e pago. E talvez esteja na altura de falarmos mais sobre isto. Sem vergonha. Sem frases bonitas para tapar buracos. Sem fingir que a precariedade é liberdade. Sem transformar cansaço em falta de talento.
Porque a agenda vazia também conta uma história.
E talvez muitos de nós estejamos a viver essa história ao mesmo tempo, cada um no seu silêncio, cada um com a sua vergonha, cada um a tentar perceber como se continua.
Eu ainda estou a tentar perceber.
Mas talvez o primeiro passo seja este: dizer em voz alta que nem sempre está tudo bem.

