
Ontem houve eleições presidenciais em Portugal. Perto de 11 milhões de pessoas podiam votar. Mas vamos ser sérios por 5 minutos: não foram 11 milhões. 47,65% decidiu que não valia a pena sair de casa.
Metade do país ficou no sofá. Olhou para a lista de candidatos e pensou: “não vale o meu domingo”. E talvez esse seja um dos sinais mais preocupantes deste momento político. A normalização da indiferença num tempo em que o que está em causa é estrutural.
Não existem candidatos perfeitos. Mas existem contextos históricos em que a escolha deixa de ser sobre simpatias, estilos ou preferências pessoais. Estas eleições são sobre o tipo de regime que queremos continuar a ter. Não se trata de dizer que já lá estamos, mas de reconhecer os sinais antes de ser tarde.
A segunda volta aproxima‑se e, ainda assim, assistimos a uma coreografia desconfortável de neutralidades. O primeiro‑ministro Luís Montenegro, Marques Mendes, João Cotrim não endossam ninguém. “Que cada um vote segundo a sua consciência”, dizem.
Mas quando a democracia é posta em causa, a neutralidade não é prudência. É abdicação. Este cenário não nasceu do nada. Cresceu na complacência, na falta de respostas sociais e no vazio deixado pela política tradicional.
O Presidente não é decorativo. É o VAR da democracia.
Como disse Filomena Cautela, o Presidente da República é o VAR da democracia. O árbitro final. A figura que pode vetar, travar abusos, dissolver parlamentos e lembrar que a Constituição não é apenas um livro bonito numa prateleira.
Entregar esse papel a quem desvaloriza direitos fundamentais, relativiza liberdades e ataca instituições independentes não é alternância democrática. É fragilização do regime.
Media, palco e desinformação
Há outro elemento que não pode ser ignorado: o papel dos media. Durante meses, assistimos a um tempo de antena desproporcionado, debates constantes, entrevistas sucessivas e uma lógica de espetáculo permanente em torno de André Ventura. Não por escrutínio sério, mas por audiências.
As sondagens quase diárias, muitas vezes contraditórias, mais do que informar, geraram ruído, confusão e uma sensação artificial de corrida de cavalos. A política transformou-se em entretenimento e o discurso extremista foi normalizado pela repetição.
Em paralelo, as redes sociais amplificaram tudo. Desinformação, frases fora de contexto, vídeos manipulados, campanhas de medo. E grande parte do espaço mediático falhou na sua função essencial. Contextualizar, desmontar, explicar. A repetição constante transforma a exceção em normalidade. Quando a política vira espetáculo, as pessoas desligam e a abstenção cresce.
Quando o ódio tem palco, microfone e repetição, deixa de parecer exceção. Passa a parecer opção legítima.
Cultura sob ataque: não são casos isolados, são ensaios
Na última semana, uma deputada do Chega, na Assembleia Municipal de Lisboa, atacou diretamente a programação cultural da cidade, apontando o Teatro do Bairro Alto e defendendo a necessidade de rever e censurar conteúdos. Poucos dias antes, em Penacova, foi cancelada a apresentação do livro Por Dentro do Chega, de Miguel Carvalho, depois de meses de compromisso assumido.
O comunicado recente do Teatrão, companhia gestora da Oficina Municipal do Teatro de Coimbra, é claro e corajoso: estes episódios não surgem do nada. Revelam uma vontade crescente de impor uma cultura ditada por quem ocupa o poder, de condicionar a programação artística e de silenciar aquilo que incomoda.
E a história ensina‑nos algo essencial. Isto começa sempre pelas margens. Pelos teatros de bairro. Pelos espaços alternativos. Pelos livros incómodos. Pelas vozes dissonantes.
São ensaios.
E a história mostra‑nos sempre onde estes ensaios acabam.
O silêncio também escolhe um lado
Perante discursos xenófobos, homofóbicos e abertamente hostis à cultura, o que se ouviu em muitas salas foi… silêncio. Ninguém interrompeu. Ninguém respondeu. Ninguém se levantou.
No meio cultural sente‑se medo. Sente‑se indignação. Existe alguma mobilização, é verdade, mas ainda insuficiente para a dimensão do ataque.
Como em Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, há sempre um fascista à mesa. A diferença é que, fora do teatro, não podemos fingir que é apenas ficção.
Uma pergunta que não podemos deixar de fazer
Fico genuinamente espantado, e triste, quando vejo pessoas da minha geração, ou mais novas, a apoiar projetos políticos que normalizam o ódio e a exclusão. Sim, chamo-lhe ignorância. Ignorância histórica, política e cívica.
O que falhou pelo caminho? Não aprendemos nada na escola? O discurso racista já não causa desconforto? Aceitamos a censura cultural como algo “normal”?
Estamos tão agarrados às redes sociais e à desinformação que deixámos de distinguir opinião de realidade?
É mesmo este o país que queremos construir?
Podemos falar a sério por 5 minutos?
Isto não é um jogo político. Não é entretenimento. Não é uma sondagem diária.
É uma escolha de fundo.
Entre a democracia e um caminho iliberal e autoritário. Entre liberdade cultural e censura. Entre pluralismo e medo.
A escolha não devia ser difícil.
A única pergunta que fica é se ainda estamos dispostos a defendê‑la. Ou se vamos continuar a assistir, em silêncio, enquanto os ensaios avançam.
