
Com a formação do novo governo liderado pelo PSD, Portugal viu desaparecer o Ministério da Cultura. A pasta foi integrada no Ministério do Desporto e Juventude, perdendo não apenas autonomia, mas também simbolismo, representação e centralidade política.
Esta decisão, aparentemente técnica, é na verdade profundamente política. E perigosa.
O que é, afinal, a Cultura?
Falar de cultura é falar da alma coletiva de um povo. A cultura vive no teatro de bairro e nas festas populares, nas canções que atravessam gerações e nas palavras que usamos para contar as nossas histórias. Vive na arquitetura que herdámos, no cinema que nos desafia, nos livros que nos formam, nos artistas que nos fazem pensar, rir, chorar ou resistir.
Mas cultura não é só identidade. É também economia, inovação, coesão social e liberdade. É a cultura que nos permite imaginar outros mundos, confrontar o presente e projetar o futuro. Desinvestir na cultura é, por isso, desinvestir na inteligência e na diversidade da sociedade.
A Cultura em Portugal: um património que exige mais, não menos
Portugal é um país profundamente cultural. Temos patrimónios classificados pela UNESCO, uma língua viva falada por mais de 260 milhões de pessoas, festivais de referência, criadores reconhecidos internacionalmente e uma nova geração de artistas, coletivos e projetos que continuam a afirmar a vitalidade criativa do país.
Apesar disso, o setor cultural continua a ser precário, subfinanciado e frequentemente empurrado para a margem das prioridades políticas. A extinção do Ministério da Cultura vem apenas acentuar essa invisibilidade.
Um erro estratégico e simbólico
A Cultura foi colocada sob a alçada de um ministério que tem, por natureza, outras prioridades: o desporto e a juventude. Se é verdade que podem existir sinergias entre estas áreas, também é verdade que a cultura exige uma visão própria, transversal e estruturante, que se perde ao ser diluída numa estrutura que não foi desenhada para a servir.
A extinção do ministério representa uma desvalorização simbólica do setor, menor capacidade de definir políticas públicas específicas e um sinal perigoso de que a cultura é vista como algo acessório, quando é essencial.
Como escreveu um autor português: “Um país que coloca a cultura em segundo plano está, inevitavelmente, a colocar o seu futuro em segundo plano.”
Os 3 F’s — regresso ao cliché?
Durante décadas, Portugal foi conhecido pela fórmula dos “3 F’s”: Fátima, Futebol e Fado, três elementos usados para entreter e desviar a atenção da população durante o Estado Novo. Hoje, a expressão ressurge com um tom amargo, ao vermos o desinvestimento político na cultura.
Não se trata de negar a importância espiritual de Fátima, a paixão pelo futebol ou o valor artístico do Fado (aliás, património imaterial da Humanidade). Mas reduzir o país a esses pilares é aceitar uma visão limitada e manipulável da nossa identidade coletiva.
Se abandonarmos a cultura crítica, questionadora, diversa e viva, voltamos a uma lógica de contenção e distração, e não de emancipação.
A cultura como espelho e farol
A cultura é o espelho onde nos vemos e o farol que nos guia. Sem ela, perdemos memória, linguagem e capacidade de pensar o futuro. Um governo que abdica de lhe dar um ministério próprio está, na prática, a dizer que a cultura pode esperar. Que não é prioridade. Que é um luxo.
Mas não é. Nunca foi.
Sem cultura, o tempo corre vazio, e o país, sem espelho, esquece-se de si.
Estaremos nós a caminhar no sentido de Fátima, Futebol e Fado?
