Ser fotógrafo freelance: entre o romantismo e a realidade

Artigo

A fotografia surgiu naturalmente no meu percurso profissional. Trabalhei alguns anos na produção de festivais, e estar nos bastidores dos espetáculos deu-me acesso, tempo e curiosidade. Comecei a fotografar. E aos poucos, as oportunidades foram surgindo. Na altura, achava apenas “fixe” ser pago para ver concertos e espetáculos. Não fazia ideia do que significava realmente viver da fotografia.

Hoje, ao fim de oito anos como profissional e mais de uma década de prática, posso dizer que ser fotógrafo freelance é uma mistura complexa de liberdade, solidão, paixão, desgaste e força mental.

Se estás a começar, aproveita cada momento. Faz ligações, conhece pessoas, sê honesto. Trabalha com outros profissionais. Aprende com eles. Este caminho é muitas vezes solitário, mas não tem de o ser sempre.

A parte bonita (mas incompleta)

Há muita coisa que me apaixona neste trabalho. Viajar pelo país. Conhecer lugares e pessoas que, de outra forma, nunca cruzaria. E sim, não ter um horário fixo. Mas se é verdade que não temos um trabalho das 9 às 5, também é verdade que trabalhamos muito mais do que 8 horas por dia. A qualquer momento, a qualquer dia.

Vale a pena continuar por aquelas pessoas com quem criamos ligações. Por aqueles momentos em que sentimos que o nosso trabalho vale alguma coisa, nem que seja por pôr um sorriso na cara de alguém. É isso que nos move. Não os “likes”.

Infelizmente, esta profissão é muitas vezes romantizada e até gozada. Já ouvi demasiadas vezes que “andamos só ali a tirar umas fotos de umas cenas”. Mas a verdade é que sem o nosso trabalho, a maioria dos projetos culturais não teria memória, nem divulgação. Somos invisíveis até ao momento em que alguém precisa de nós.

A realidade que não se vê no Instagram

Ser freelancer exige uma força mental brutal. Nem sempre temos essa força. A caixa de e-mail já não se enche como antigamente. Os orçamentos baixaram. E a concorrência aumentou, nem sempre de forma justa.

Já recusei inúmeros trabalhos por não respeitarem minimamente o valor do tempo, do conhecimento e da dedicação envolvidos. Mas o problema é estrutural: há sempre quem aceite. E assim o mercado vai-se destruindo a si próprio.

Nos últimos anos, surgiram muitos novos “fotógrafos” que confundem ter uma boa máquina com ter uma profissão. Não é a mesma coisa. E no meio dessa confusão, o nosso trabalho vai sendo constantemente desvalorizado.

Vamos falar de dinheiro?

Falar de dinheiro continua a ser tabu entre criativos mas devia ser prioridade. Já recebi propostas para trabalhos por valores que mal cobriam os custos de deslocação. E conheço quem tenha aceitado. Não por falta de talento, mas por necessidade.
Mas o pior não é isso. O pior é que quando recusamos, somos arrogantes. Quando aceitamos, somos cúmplices da desvalorização.

A verdade é esta: o nosso trabalho deve ser bem pago. Não é só “clicar num botão”. Há um trabalho antes, durante e depois. Equipamento, deslocações, edição, preparação. E acima de tudo, há o olhar. A experiência. A forma como contamos histórias.

Quando damos demais, abusam. Somos os primeiros a ter de valorizar o nosso trabalho. Porque os outros dificilmente o farão por nós.

A luta criativa e o cansaço invisível

Ser criativo todos os dias é uma pressão imensa. Somos sempre julgados pelo último projeto que fazemos. E temos de estar sempre com um sorriso na cara.

Há semanas inteiras em que passo horas sozinho na autoestrada, a ir de projeto em projeto. E é nesses momentos que os pensamentos mais difíceis aparecem. Porque sim, este trabalho pode ser incrivelmente solitário.

O que aprendi até agora

Não devemos dar tudo, mesmo quando queremos. Hoje, procuro projetos com sentido. Criação comunitária. Iniciativas que impactem uma pessoa, uma aldeia, um grupo. Que façam sentido nem que seja para alguém.

A minha bússola é clara: sinceridade acima de tudo. Relações diretas e honestas.

Ainda estou a tentar perceber qual é o meu lugar na fotografia. Mas sei que este caminho vale a pena se formos fiéis a nós próprios.

O que é, afinal, o sucesso?

Para mim, sucesso talvez seja poder pagar as contas ao fim do mês sem stress. Poder respirar. Viver do que amo sem viver em constante ansiedade por não saber se vou conseguir pagar a conta da luz ou a segurança social.

Se há uma mensagem que quero deixar a quem está a começar, é esta: Se queres mesmo, acredita. Atira-te de cabeça. No fim, tudo vale a pena.

Scroll to Top